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Quando você estudou historia, foi morar na Republica Tcheca onde produziu o video “NOVÁ VLNA”. Foi nessa epoca que você começou a filmar? Qual foi o a faisca pra entrar nessa?

O skate tem um grande peso no meu envolvimento com cinema. Apesar de eu ter sempre gostado de cinema, foi assistindo vídeos de skate que me fizeram pensar “porra, eu acho que eu sei o que está acontecendo nessa tela; eu acho que sei o que faz esse video ser bom, e acho que eu sei fazer isso bem.” Daí, foi meio natural desenvolver a mesma percepção em relação ao cinema em geral e tentar aprimorar através do caminho acadêmico que eu já seguia. Foi em 2012/13, em Praga (Rep. Tcheca) que eu dei um passo mais firme nesses dois sentidos: comecei a filmar skate mais regularmente na Stalin e a cursar aulas de cinema como parte do intercâmbio. O resultado foi o NOVÁ VLNA, que mistura skate em Praga e o cinema da “nova onda” tchecoslovaca… 

O legal é que agora, estudando teoria e análise de cinema, comecei a repensar, a questionar o vídeo de skate de uma maneira mais estruturada.

Que diferenças você vê entre a cena do skate de montreal e de São Paulo?

A cena de skate em MTL é bem massa, é grande e bem estabilizada também: tem importantes picos base, como a Peace Park, tem marcas e produções de video legais como a Dime, Studio e os caras da Alltimers, e como vcs devem ter notado tem bastante a ver com aquelas ideias de skate zuera, coquetel, Corona e speed shades!! hahah

Mas viver num país como o Canadá é algo doido, porque a diferença entre a realidade deles e a nossa se torna extremamente clara, óbvia. E isso tem me colocado algumas questões especialmente em relação ao espaço urbano, e como a gente como skatistas e videomakers brasileiros podemos expressar a nossa realidade urbana. Cara, em Montreal a vida é fácil, estar na rua é fácil…  qualquer skatista pode trabalhar meio período e viver onde bem quiser na cidade, suporte do governo e o escambau, podendo se dedicar ao skate sem preocupação na cabeça. Pra quem estuda como eu, também vários incentivos. O único enquadro que tive aqui na Peace, acabei tendo que jogar minha Goose Island fora e só (aqui não pode beber na rua, vergonha! hahah).  A experiência urbana é muito tranquila aqui, estar na rua é algo que as pessoas fazem como parte da vida privada delas, em segurança, sem ser incomodado. 

Já no Brasil, estar na rua é estar suscetível a todas as intempéries da rua, e talvez por isso a gente ocupa o espaço público de uma maneira mais “verdadeira” — digo verdadeira porque é de certa forma mais contraditória, mais contestatória, mais rua.

Acho então que o nosso skate já é diferente do deles. Difícil falar que nosso skate é “diversão”, nosso skate é talvez coisa mais séria. Skate, especialmente no Brasil, assume a forma de um ato público, um discurso urbano. Então, acredito que um caminho interessante para o vídeo de skate brasileiro é estar de acordo com a complexidade e severidade da nossa realidade, e talvez ajudar a transformá-la.

Atualmente está trabalhando em algum projeto novo?

Na verdade não. Durante o mestrado a carga tem sido tão pesada que quando tenho tempo eu só quero ir pra rua andar de skate mesmo, sem mochila pesada e o escambau. Então tenho muito pouca imagem de skate. Pelo menos nesses últimos dois meses, estando em SP consegui filmar com você e o Felipe, e também algumas coisas com o Cotinz na Dornelândia e com o Juli. Então já deu pra matar um pouco a vontade de rec hahah. 

Já no mestrado pude entregar alguns trabalhos em formato audiovisual, o que foi muito interessante como estudo de questões teóricas, conceituais e tudo. Não vejo a hora de ter a possibilidade de focar num em algo mais extenso no Brasil, um projeto de skate mais conceitualmente estruturado… mas talvez pode demorar.

Suas maneiras de filmar e editar são bem caracteristicas, foi um processo natural ou você se puxou pra ter uma boa linguagem própria?

Um pouco dos dois. Teve aquele lado mais natural, através de prática e treino, em que a gente vai aprimorando uma noção estética que a gente as vezes sente que já tem, e que também foi condicionada através de inúmeras sessões de vídeo de skate. E tem também o lado mais pensado, mais racional, que a gente mesmo se puxa tanto de forma técnica como conceitual.

Tecnicamente,eu busquei colocar mais velocidade nas minhas imagens, colando a câmera mais perto, fazendo mais movimentos de câmera, e cortes e syncagens mais precisas. Conceitualmente, eu comecei a trabalhar a edição para deixar as imagens definirem climas e diálogos entre elas, em associação mais produtiva com a trilha sonora. Acho que foi isso que se tornou minha linguagem, algo que busca estudar e trabalhar o que tem de real em cada imagem.

A trilha sonora é algo que parece ter uma atenção especial nos seus videos, o que te influenciou nessa parte? e o que tem ouvido ultimamente?

Cara, eu basicamente só ouço hip-hop — e bastante música brasileira agora também, quando bate a saudade da terra — mas também acho que tem coisa boa em qualquer gênero. No caso dos meus vídeos de skate é um pouco isso: eu uso o que eu acho bom, skatável e que adiciona algo interessante à imagem. De Erik Satie, a Tim Maia, a Blu. Na real, eu não sou muito versado em música, não conheço muita coisa. Mas consigo resgatar coisas interessantes que já ouvi alguma vez e que acho que vão funcionar como trilha. O segredo é construir um diálogo produtivo entre imagem e som, e muitas vezes a contradição é a idéia mais legal. No caso então, meus trechos favoritos que eu fiz foram a intro do NDSP #3 (Erik Satie, Gymnopedie No.1) e a primeira parte do Esboço (Miles Davis, Blue in Green). Fazer todo o NDSP com trilha do MJP também foi muito foda. E esse vídeo pra Surreal também gosto muito da trilha… Nina Simone é muito skate, e cai muito bem no skate do Felipe, que é muito soul <3

Fala 2 vídeos de skate que te influenciaram muito e 2 novos que você acha que vale a pena conferir

Inicialmente, acho que uma grande influência foi Alien, o “Mind Field” do Greg Hunt… e mais tarde, um vídeo menor, o “Butter Goods - Indestructible” do Josh Roberts (https://vimeo.com/108360048)  

Acho que vale a pena conferir um videozinho obra-prima do Adam Bos, chamado HEADROOM (https://vimeo.com/87618184) e a serie Flanantes do Murilo, que chama a nossa atenção para várias questões que a gente não pode ignorar, especialmente no caso do skate e vídeo de brasileiro. Falando nesse tipo de coisa, põe aí também os Ruexistências, Riguetti é muito foda.

Mas pois é, acredito estar ocorrendo uma importante “nová vlna”, um “new deal” no cenário do vídeo de skate no Brasil.

Te dá mais vontade sair pra andar de skate ou sair pra filmar alguém?

Hahaha essa é uma boa pergunta.. Mas com certeza sair pra andar. Acho que antes de tudo sou skatista, num tem jeito. Filmar a gente sai de casa meio como um dever, saca? Algo muito daora, mas como uma missão sempre. Por esse motivo também que, muita vezes, filmar é mais gratificante… eu ando mal pra caralho hahaha

Você pensa em picos e skatistas especificos quando vai fazer um projeto ou deixa acumular footage pra depois escolher o que fazer?

Nunca fiz isso de planejar… nem em vídeo de skate, nem na vida. Mas se pá já é hora de começar hahahah