Lucas Sant'Ana

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Como você conheceu (e se envolveu) com a Surreal São Paulo?

Eu conheci a surreal bem no inicio. não me lembro exatamente como, mas com certeza foi pelo instagram porque eu me identifiquei muito com a fotografia e a linguagem de vocês.

Você sempre quis ser um fotógrafo?

Desde muito novo eu fotografo, mas acho que “ser fotógrafo” nunca foi uma ambição minha. Minha única ambição, na verdade, é conseguir continuar produzindo as minhas coisas. Me denominar apenas como fotografo, acho que estaria me limitando.

A maior parte do seu trabalho é em filme. Você cataloga todos os  arquivos?

Hoje em dia, 100% do meu trabalho é feito com filme. Sobre a questão da organização, eu diria que meus negativos estão todos bem guardado, mas organizados é uma palavra muito forte. Organizar eles é algo que tenho procrastinado.

A sua relação nas fotos é bem pessoal. Há intensidade, mas uma certa distância. Seria um espelho de sua relação com o mundo em geral?

Muito bem reparado, é um espelho sim.

Algumas fotografias suas são borradas. Você faz isso de propósito, ou são acidentes felizes?

Hoje eu faço de propósito, mas começou depois de um “acidente” feliz.

Estima-se que 1,2 trilhões de fotografias foram tiradas em 2017, e esse número deve crescer cada vez mais. Como você vê esse estouro da fotografia?

Acho que a fotografia nunca esteve tão acessível como hoje. Você tem a liberdade de escolher o que quer usar no teu trabalho (filme, médio formato, grande formato, digital, celular e etc.). Mas o que eu penso é o que vai ficar dessa quantidade enorme de fotografias produzidas? Acho que toda essa facilidade de hoje acaba causando muita ansiedade, nosso tempo digital é muito rápido e a vontade de produzir rápido pode, de alguma forma, acabar sendo ruim para o trabalho. Eu aprecio muito o tempo de maturação e não curto sair vomitando imagens. Meu processo, hoje em dia, é bem devagar e eu não produzo minhas coisas para ter um trabalho reconhecido. É mais que isso. É uma necessidade minha, quase um instinto eu diria.

A Susan Sontag escreveu no livro On Photography que “Fotografar pessoas é violá-las, vendo-as como elas mesmas nunca se vêem, tendo conhecimento delas que nunca poderão ter; transforma pessoas em objetos que podem ser simbolicamente possuídos. Assim como uma câmera é uma sublimação da arma, fotografar alguém é um assassinato subliminar - um assassinato brando, apropriado a um momento triste e assustado.” Você concorda com ela?

Interessante pensar nisso, acho que um assassinato é algo muito agressivo e eu não concordo neste ponto. Quando eu fotografo alguém eu apresento para essa pessoa minha interpretação e o meu olhar sobre ela e com isso pode vir a minha visão de mundo e o que eu acredito e também essas questões nessa pessoa, então não acho que seja um “assassinato” mas sim a apresentação do meu ponto de vista sobre o objeto não anulando o objeto em si mas apresentado o meu eu sobre ele. Logo discordo.

Existem dias que você acorda distante da fotografia, não querendo ver?

Como eu disse ali em cima, a fotografia para mim é algo muito instintivo. Eu não saio de casa sem uma câmera, mas também não saio por aí caçando as coisas. Cansado da fotografia não, mas do meu mundo sim.

Você escreve um diário, ou mantém um livro de anotações?

Não escrevo um diário com frequência e tudo mais. Acho que sou pouco disciplinado para isso, mas sempre anoto as idéias e pensamentos em algum lugar.

Você se importaria de mandar a última frase que escreveu?

A última anotação que achei foi sobre uma serie de fotografias que estou para fazer em uma cidade um pouco afastada de São Paulo.

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